A situação do Brasil é deprimente. O grupo que o governa há 13 anos formulou um único projeto, permanecer no poder. O poder pelo poder, pois não esboçou sequer um conjunto coerente de medidas para o país continuar a desenvolver-se. Exceção feita ao Bolsa Família, alguns programas foram sacados da cartola, improvisados, para atender a conveniências. É claro que, para o projeto de poder imaginado, eram necessários vultosos recursos. Para isso, implementou-se o mais abrangente esquema de corrupção, envolvendo o setor público e privado, numa promiscuidade nunca antes vista. Além disso, a incompetência gerencial fez com que o país mergulhasse na mais grave crise. Devido a erros crassos na economia, tem-se a estagflação, o desemprego, a falta de credibilidade, a dívida atingindo patamares preocupantes. Recentemente, praticou-se o calote eleitoral: sob o regime da mentira, pintou-se um quadro cor-de-rosa, em que tudo ia muito bem. Como a realidade era bem outra, tem-se agora um governo desmoralizado, sem as mínimas condições de atuar para sanar a crise. Em vista da gravidade dos fatos ocorridos, com a complacência e aprovação do governo, pedidos de impedimento da presidente foram formulados, sendo que um deles está em discussão no momento.

O governo luta com todos os meios possíveis e inimagináveis para que o impedimento não prospere. Ora, se tudo transcorre dentro de preceitos constitucionais, a defesa deveria ser feita também dentro de tais princípios. Não sob o império da mentira, de conluios, de embustes, compra de apoios e incitação à violência. A presidente deveria ter a grandeza de renunciar e propiciar a chance de um recomeço, sob outros pilares. Supondo que, pelos esforços listados, o impedimento não seja aprovado, como continuar a condução do país com a atual rejeição, desmoralização e descrédito perante a nação? Pergunta-se: por que se luta tanto pelo poder quando nada há a oferecer? Normalmente, luta-se por ideal, por projeto consistente que beneficie o povo. Mas não há propostas meritórias, existe a falência total. Só posso pensar que se trata de uma deficiência mental que incapacita pessoas de proceder a uma autocrítica honesta e sem vícios. É claro que a vertente ideológica obstrui o raciocínio dos indivíduos.

Com relação às mentiras e aos atos desonestos praticados, penso que contribuímos para este estado de coisas. Este é o país do jeitinho. Detesto muitas coisas que aqui ocorrem. Na minha criação, os valores éticos universais foram sempre valorizados e absolutos. Durante a vida, fui bem testado e me saí bem. Por exemplo, a minha passagem pelo Exército foi uma boa prova. O cumprimento de todas as obrigações e comportamento exemplar me valeram a saída na primeira baixa, como prêmio. Poucos conseguiram esta façanha. Vivi 3 anos na Noruega. Nos países nórdicos as regras são muito rígidas. Adaptei-me como uma luva àquele país. A dificuldade foi readaptar-me ao Brasil; na realidade, isso nunca, de fato, aconteceu.

No país notam-se várias mazelas, como resultado da conduta da maioria das pessoas. Vejamos: furar fila; desrespeitar vagas de idosos e cadeirantes; não respeitar limite da velocidade no trânsito; levar vantagem em tudo, dirigindo pelo acostamento ou furando a fila quando se vai fazer uma conversão; ingerir bebida alcoólica e dirigir; comprar produtos pirateados; fazer gatos para energia elétrica, água e TV; jogar lixo na rua; sonegar impostos; subornar policiais; colar na escola, entre muitas outras. Estes comportamentos são impensáveis na Noruega. E, se alguém comete um deslize, a penalidade é severa. No momento em que presenciamos o lamentável cenário de corrupção e a podridão reinante no país, seria muito produtivo que fizéssemos campanhas de valorização de procedimentos desejáveis. Mudanças seriam muito bem-vindas para facilitar a convivência harmônica. Boas práticas mudariam o comportamento da maioria das pessoas. Pode parecer sem sentido esta pregação. Porém julgo indispensável, pois quem é fiel no pouco, será também fiel nas coisas grandes. Teríamos esperança no futuro.

José Martins de Godoy
173 – 22/04/2016

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila