Os Jogos Olímpicos do Rio vão deixar saudades. Foram 17 dias em que o esporte de alto desempenho encantou o mundo, que estava com atenção voltada para o Brasil à espera de acontecimentos catastróficos. Para o brasileiro, foi motivo de orgulho a exuberância e o bom gosto das cerimônias de abertura e encerramento, bem como a realização dos jogos sem grandes percalços. As vitórias no futebol e vôlei masculinos, esportes mais populares do país, deixaram a sensação de que não só sediamos, mas vencemos os Jogos Rio 2016. No momento, realizam-se os Jogos Paralímpicos, num clima de normalidade, de festa e muita emoção. São modalidades em que o país se sai bem.

 

Em 2014, na Copa do Mundo, recebemos um amigo francês em casa. Ele nos disse que o Brasil deveria ser sede fixa de todas as Copas do Mundo e Olimpíadas de Verão, pois muitos países sabem sediar eventos com excelência, mas ninguém sabe fazer festa como o brasileiro. E constatamos, em 2016, que ele está mais do que certo. Gostamos do elogio, mas, racionalmente, não nos contentamos com um país com vocação exclusiva para “salão de festas”. No caso do Rio 2016, a festa custou 40 bilhões de reais, sendo 7 bilhões no complexo olímpico. A iniciativa não foi ou não deveria ser por puro diletantismo. Esperam-se desdobramentos favoráveis para o país. Até o presente, não temos conhecimento de um substancial aumento na arrecadação de tributos que justificasse tal investimento.

 

Não se sabe sequer se haverá aumento do fluxo de turistas no futuro, pois a mídia internacional se aproveitou da nossa atual crise e foi implacável com o Rio antes dos Jogos, destacando a desorganização e a insegurança (as primeiras manchetes é que ficam!). Depois, deu destaque a alguns incidentes durante as Olimpíadas, sem fazer um desmentido veemente sobre as primeiras notícias.

 

Sobre o desempenho esportivo brasileiro, foram mais de 3,2 bilhões de reais de recursos públicos investidos, mais que o dobro da Grã-Bretanha. Não foi o suficiente para ficarmos entre os 10 primeiros, enquanto os britânicos foram a grande surpresa, na segunda colocação.

 

Durante os jogos, alguns ídolos olímpicos americanos atribuíram o consagrado sucesso esportivo do país à prioridade que se dá ao esporte na escola. Os jovens são incentivados e, quando se percebe um deles com potencial, ele é direcionado a um centro educacional de excelência naquele esporte, onde será formado como atleta de alto desempenho, sem descuidar dos estudos. Esportes para eles são prioridade. Já a Índia não os prioriza. Também não tem resultados relevantes. Prioriza investimentos em educação. Boa parte dos PhDs formados em todo o mundo continua sendo proveniente da Índia. Por isso, hoje a Índia é a economia que mais cresce no mundo.

 

Voltando ao nosso caso, não deveríamos nos deixar levar pelo emocional da bela festa, mas analisar pragmaticamente as nossas questões internas. A gestão pública continua investindo em tudo, deixando de priorizar o que é mais importante. Somos um país rico, mas temos uma educação deplorável, saúde pública completamente falida e segurança pública de apavorar qualquer cidadão. E quando se decide investir em esportes, coloca-se uma montanha de dinheiro e os resultados são medianos, pois há pouca inteligência gerencial no sistema que abrange desde o ministério, passando pelo Comitê Olímpico, confederações e federações esportivas. As escolas, que deveriam ser o início de tudo, além de não serem envolvidas, têm problemas muito mais estruturais para resolver, pois não cumprem nem mesmo sua atividade finalística, que é ensinar os jovens a ler, escrever e lidar com a aritmética básica. Basta ver a tragédia apontada pelo Ideb/2015. Peter Drucker, o maior teórico da gestão mundial, disse certa vez: não há países subdesenvolvidos. Há países subadministrados. Como não nos contentamos em ver o Brasil apenas como “salão de festas” do mundo, temos esperança de que é chegada a hora de a classe política acordar para nossa dura realidade e começar a gerir o Brasil, de fato.

 

 

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila. Visite www.blogdogodoy.com. Em colaboração com Rodrigo Coelho de Godoy, pós-graduado em administração de esportes, Universidade de Liverpool, Inglaterra.

José Martins de Godoy
183 – 23/09/2016

Fonte: http://revistaviverbrasil.com.br/plus/modulos/listas/?tac=noticias-ler&id=1543#.V_JXrfkrLIU. Disponível em 03 de outubro de 2016.