Participei recentemente de uma reunião em uma entidade interessada em contribuir para a solução de problemas brasileiros, como saúde e segurança. Buscava a possibilidade de conduzir um projeto piloto como demonstração de que resultados de tais áreas podem ser melhorados. Queria parceiros financiadores e tecnologias para abordagem do citado projeto. O coordenador da reunião assinalou que tinha conhecimento de um projeto em que se aplicava o PDCA, dando a entender que aquilo já era. Fiquei desapontado, pois o PDCA é o que há. É um método científico para a solução de problemas, para atingir resultados. Como gestão é atingir metas, vencer desafios, melhorar resultados, o PDCA é o cerne da gestão. A lógica do método é matadora. Aplica-se em qualquer situação, em qualquer área, em qualquer tipo de problema. Para problemas mais simples, ferramentas mais acessíveis; em problemas complexos, ferramentas mais poderosas. A propósito, a maioria das pessoas não sabe o que é problema. Os problemas estão nos resultados; portanto, é um resultado ruim ou algo que precisa ser melhorado. Numa escola, os problemas são a alta taxa de reprovação, de abandono e rendimento pífio da maioria dos alunos aprovados.

Concluí que a maioria dos dirigentes e técnicos que deveriam ser os promotores de mudanças não tem conhecimento do que é gestão. No caso do PDCA, conhecem o significado das iniciais, mas não sabem aplicar o método. Há sempre a busca de alguma panaceia para, num passe de mágica, mudar realidades que só seriam sanadas com conhecimento adequado, muito trabalho e perseverança. Haja vista, no caso da educação, as numerosas visitas à Coreia do Sul, Finlândia e China. Lá encontram professores bem formados, com mestrado, bem remunerados; professores e alunos presentes na sala de aula; currículo cumprido; seriedade; exigência ferrenha, entre outros. Não seria preciso ir muito longe, se não tivéssemos memória tão curta. Lembraríamos do Colégio Estadual de MG, das décadas de 1950 e 60. O que lá havia? Os melhores professores, bem remunerados, nomes famosos e reconhecidos na comunidade. Seriedade absoluta e exigência de elevado desempenho dos alunos. Poderão dizer que agora o ensino é massificado e que não é possível reproduzir as mesmas condições. Certo, em parte. Porém, a fórmula é conhecida.

A minha decepção vai além. Nos últimos 30 anos, treinamos milhares de dirigentes empresariais e da área pública. As empresas reproduziram os ensinamentos para seus colaboradores, chegando à casa de milhões de pessoas. Foi feito um grande mutirão para resolver problemas e aumentar a produtividade. Tiveram que fazer isso porque constataram que a maioria das empresas estava no vermelho quando da redução da inflação: o lucro aparente vinha de aplicações financeiras. Várias empresas alcançaram patamares de excelência e algumas se transformaram em multinacionais. Que vemos agora? Pessoas que foram treinadas estão se aposentando e as que estão sendo repostas não são treinadas em solução de problemas. Encontramos muitos craques em ditar a problemática, mas não apresentam a solucionática, como diria Dario, o Peito de aço. Além disso, depois de determinado período de bonança, houve um relaxamento e o trabalho que precisaria ser contínuo, metódico e persistente foi negligenciado. Como consequência, o país ocupa hoje a 81ª posição no ranking da competitividade mundial. É preciso ter a consciência de que a competitividade é conquistada com aporte de conhecimento, trabalho duro e incessante, envolvendo todas as pessoas. Quando procuramos ressaltar a necessidade de voltarmos a aplicar gestão para atingir melhores resultados, há aqueles que julgam o esforço realizado no passado como um modismo. Querem uma estratégia milagrosa para, sem muito esforço talvez, resolver os nossos imensos desafios. A falta de conhecimento é tão impressionante que chegam a sentenciar que o PDCA já era, quando não sabem sequer do que se trata, tenho certeza. Na área pública, isso é uma verdade inconteste. Ouviram o galo cantar e não sabem onde. Se conhecessem a potência do método e soubessem aplicá- lo, o país não se encontraria na lamentável posição acima.

José Martins de Godoy
193 – 17/03/2017

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG,cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila. Visite www.blogdogodoy.com

Fonte: http://revistaviverbrasil.com.br/plus/modulos/listas/?tac=noticias-ler&id=1751#.WNAdum8rLIU. Disponível em 20 de março de 2017.