Fiz pós-graduação na Noruega durante 3 anos, isso há 40 anos. Já era um país rico. Depois da descoberta de petróleo no mar do Norte, tornou-se ainda mais abastado. Administrou com competência o recurso não renovável, aproveitando os preços altos da commodity até 2013, elevou o nível de riqueza da população e ainda constituiu fundo de cerca 1 trilhão de dólares para que as futuras gerações usufruam dos benefícios do petróleo. É uma quantia muito significativa, quando se considera que a população é de apenas 5 milhões de habitantes. Pelo 12º ano consecutivo, a Noruega ocupa o 1º lugar do ranking do IDH (0,955), sendo o Brasil o 85º ( 0,730). A sua renda per capita é de 100 mil dólares. Mas nem tudo são flores. A BBC Brasil lista 5 razões para não ser tão fã da Noruega: alta carga tributária, gasolina e cerveja caras, os lobos correm riscos de extinção devido à caça e alto consumo de droga. Ora, os preços da gasolina e cerveja não devem parecer tão elevados para quem tem a renda per capita relatada. A caça aos lobos pode ser revertida quando quiserem, pois os cidadãos são conscientes e disciplinados. O consumo de drogas é, de fato, um problema, mas duvido que seja maior do que no Brasil. A carga tributária de 39% ( já foi de 47,5%) é, em termos relativos, menor que a nossa. Eles têm educação, saúde, segurança, infraestrutura, entre outros, de primeira qualidade. A população está satisfeita com os serviços públicos (e com os políticos). Há casos de a população estar pensando em reivindicar algum benefício e o governo estar planejando algo mais avançado. Em resumo, é um privilégio viver naquelas paragens, apesar do inverno rigoroso de 6 meses, ao qual me adaptei muito bem. O inverno tem os seus encantos, ar puro, paisagens belíssimas e muitas oportunidades de prática de esportes da estação.

A nossa carga tributária é de 35%. O impostômetro registrou mais de 2 trilhões de reais ano passado. O custo/benefício deve ser dos mais altos do mundo. A população recebe o quê? A retribuição aos tributos é ridícula. Educação de péssima qualidade (55º lugar no teste do Pisa). Saúde: vejam a deprimente situação do Rio de Janeiro. Segurança, uma lástima. A infraestrutura é precária, rodovias são assassinas. Grande parte da população é deserdada. Os maiores pagadores de impostos acabam bitributados para ter educação e saúde aceitáveis. Como se não bastasse a atual carga de tributos, os governantes propõem novos aumentos para sanear as contas públicas, como se fosse, com isto, equilibrar os custos deste estado gigantesco. E já se encontra em curso a elevação de alíquotas de vários itens, que não dependem do Congresso. Para coroar, pretende-se a aprovação da CPMF. As reduções de despesas divulgadas pela presidente ficaram só na propaganda enganosa. A propósito da atual crise, vive-se um ano novo e desculpas antigas. No entendimento do governo, a crise se dá em virtude de fatores externos, da atuação da oposição, da Lava Jato. E nunca por decisões econômicas equivocadas, tomadas por esta governança iluminada. Admitem-se erros, logo acompanhados de justificativas toscas. É nisso que dá entregar o país a uma suposta gerente que não sabe sequer o que é meta. Os entendidos em gestão sabem que uma meta tem 3 requisitos: objetivo, número e prazo. Por exemplo: duplicar rodovias federais. Objetivo: duplicar trechos das BRs–116 e 371; número: mil quilômetros; prazo: até dezembro de 2016. É evidente que não se pode deixar meta em aberto e, quando atingi-la (o quê?), dobrar a meta. Isto é linguagem do gestor desorientado.

Pelas recentes declarações, não se enxerga luz no fim do túnel. Tem-se que aplicar a sabedoria do futebol. Trocar o técnico. Chega-se a um ponto em que os jogadores não são mais motivados, as jogadas ensaiadas não dão certo, o conjunto não funciona. As relações estão desgastadas com os jogadores titulares, os reservas não têm oportunidades e estão também descontentes. Para completar, a torcida não dá tréguas, vaia o time, o que piora a situação. Não há outra solução, é preciso trocar o técnico. Funciona, desde que não seja o Íbis, o pior time do mundo. Acontece uma sacudida na equipe e as vitórias voltam a acontecer. Parece que o time Brasil está a requerer a mudança do técnico. O difícil é encontrar um à altura do desafio.

José Martins de Godoy
167 – 22/01/2016

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila.

Fonte: http://revistaviverbrasil.com.br/plus/modulos/listas/?tac=noticias-ler&id=1173#.VqIGlPkrLIU. Disponível em 22/01/2016.