Os resultados do Ideb/2015 mostram a tragédia que é o ensino público brasileiro. O ensino médio e fundamental 2 não atingiram as metas definidas para o exercício em pauta. No meu julgamento, falta o entendimento de quais itens são realmente importantes para produzir bons resultados. É óbvio que não basta criar slogans do tipo Pátria Educadora e fazer exortações para atingir melhores resultados. Também não é suficiente estabelecer metas (já foi um grande avanço, pois antes a palavra meta era considerada um palavrão na área educacional), é preciso ensinar “como atingir as metas”. O pulo do gato é a gestão focada em resultados.

Há exceções nesse universo trágico. Merece destaque o que foi conseguido pelo estado do Ceará. Entre as 100 melhores escolas públicas do país, 77 são do Ceará. No ensino fundamental 1 e fundamental 2, as 10 primeiras e 5, entre as 10 primeiras, respectivamente, são daquele estado. O que aconteceu? Julgo que a maneira de gerenciar o sistema teve forte influência. Nós lá estivemos implementando programas de gestão de 2001 a 2006 (com algumas interrupções durante uma mudança de governo). A Gestão Integrada da Escola (Gide), idealizada por Maria Helena P.C. de Godoy, começou a ser difundida em 2005, com a participação de todos os dirigentes da Secretaria da Educação e das escolas estaduais. Foi um movimento avassalador, tendo a aprovação de 98% dos dirigentes envolvidos. Continuamos acompanhando à distância a forma de atuação dos responsáveis pela gestão do ensino no estado. Vários deles são pessoas formadas naquele processo inicial e, no nosso entendimento, nunca deixaram de perseguir as metas de melhoria.

Outro destaque é a cidade de Manaus. O Instituto Aquila conduz, naquela cidade, um projeto que abrange cerca de 450 escolas na implementação da Gide. O ensino fundamental 2 era o mais crítico. A forte liderança do prefeito e da secretária de Educação, com grande envolvimento dos demais dirigentes e docentes, fez com que Manaus fosse a cidade que mais crescesse no país no Ideb/2015. O fundamental 2 deu um salto significativo. A revista Exame, na edição de 28/9/2016, numa reportagem de 5 páginas, sob o título Como Manaus passou de ano, narra este feito excepcional da capital do Amazonas. É uma prova cabal de que a gestão focada em resultados, conduzida por liderança comprometida, persistente e laboriosa e participação de assistência técnica competente, realmente funciona. É claro que é necessário abordar as causas fundamentais que impedem o atingimento das metas. E isso a Gide e as pessoas que a implementam sabem muito bem fazer.

Outro exemplo edificante é a Escola Estadual Gomes Carneiro de Porto Alegre. Conseguiu atingir a melhor média no Enem, entre as escolas estaduais do país. Como a maioria das escolas, tem muitas carências, falta de verbas (neste particular, o Brasil não está mal posicionado entre os países da OCDE. Ocupa o 15º lugar; porém, há desequilíbrio na destinação dos recursos pela falta de foco em que investir), instalações precárias, conforme foi mostrado em reportagem realizada na escola e mostrada para todo o país. Apesar de tudo, os dirigentes e docentes não esmoreceram e produziram esse milagre. É interessante notar que se concentraram nas causas normalmente encontradas em milhares de escolas da rede pública do país. A questão é definir as mais importantes, priorizá-las e implementar as contramedidas para saná-las. Dentre as causas, a mais importante é comprometimento do corpo docente e o seu empenho em conduzir as tarefas pertinentes. Isso foi o que mais chamou a atenção na Gomes Carneiro.

Quando se tem a Gide como método de trabalho, sustentada pelo Índice de Formação de Cidadania e Responsabilidade Social (IFC/RS), também idealizado por Maria Helena P.C. de Godoy, torna-se fácil buscar as melhorias. O índice possibilita diagnosticar rapidamente as causas que impedem as escolas de atingir bons resultados. Foi concebido pela observação das causas recorrentes em mais de 5.000 escolas públicas. Contando com liderança, persistência, dedicação, amor pela causa da educação (itens indispensáveis para o aproveitamento do potencial da juventude brasileira e imprescindíveis ao progresso da nação), não tem errata. É melhorar ou melhorar.

José Martins de Godoy
185 – 28/10/2016

Fonte: Disponível em http://revistaviverbrasil.com.br/plus/modulos/listas/?tac=noticias-ler&id=1580#.WBMzCC0rLIU em 28 de outubro de 2016.

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila.
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