O ano de 2016 foi produtivo para passar o país a limpo! Quando a gente achava que já tinha visto tudo, era surpreendido por acontecimentos jamais pensados. Vivenciei a renúncia de Jânio Quadros e os tempos conturbados de João Goulart. Depois o país comandado pelos militares. Na redemocratização, a morte de Tancredo Neves e o desastrado governo Sarney. Tive grande entusiasmo com Collor, seguido de imensa frustração; sua grande façanha foi a segunda abertura dos portos. Itamar teve um início titubeante, mas se recuperou com a participação de FHC na Fazenda, iniciando o combate à inflação. O governo FHC implementou o Plano Real e conseguiu domar a inflação; trabalhou para colocar a casa em ordem, criando condições básicas para melhorar a gestão do país. Enfrentou, no período, três grandes crises financeiras internacionais. Lula surfou no grande crescimento mundial, principalmente o da China. As commodities propiciaram considerável acúmulo de reservas em dólares. Poderia ter realizado uma enormidade, além da tentativa da distribuição de renda. Não realizou reformas, nem cuidou de itens básicos de responsabilidade do governo: saúde, educação, segurança , infraestrutura. Nesse governo, começou a institucionalização da corrupção. A história vai mostrar que foi um governo medíocre. O governo Dilma foi um desastre, que desaguou no seu impedimento. Os fatos são recentes, não havendo necessidade de comentários. Vamos admitir, nesses tempos houve muitos desacertos, irresponsabilidades e desprezo à ética. O notável, neste momento, é o combate à corrupção endêmica. É imperioso que o mentor e principais agentes deste monstruoso movimento sejam extirpados da política nacional.

Como não há bem que sempre dure e mal que nunca se acabe, o universo está conspirando a favor da nação. O Mensalão foi uma pequena amostra dos descaminhos que os políticos começavam a trilhar. Ficou muita coisa a apurar. Se não fosse a persistência do ministro Joaquim Barbosa, tudo terminaria em pizza. Vimos ministros chicaneiros tentando melar o processo. De repente, aparece a operação Lava Jato, investigando algo bem pequeno. Ao puxar o fio da meada, vão surgindo coisas inimagináveis. Custo a pensar que esta gangue pudesse tomar conta do país com tanta desenvoltura. Políticos de todos os níveis, dirigentes de estatais, empreiteiros implementaram uma força-tarefa para praticar a corrupção, sem precedentes, em escala colossal. Não se tem notícia que já tenha acontecido em outro país. É assustador pensar que o maioria dos congressistas e alguns ministros estejam envolvidos. Daí assistirmos a tentativas de barrar a Lava Jato pela inibição de procuradores e juízes. É lastimável ver dirigentes da República submetidos a inquéritos, denunciados e como réus. Essas pessoas deveriam afastar-se. Mas jogam pesado, dão a entender que, sem eles, as reformas não serão votadas. Estão em primeiro lugar; o país que se dane.

Merece destaque, neste contexto, Sérgio Cabral. Trabalhamos com ele um bom tempo. Parecia uma pessoa honesta e comprometida. Foi elogiado por nossa organização como um dos melhores gestores públicos. Nas primeiras referências ao recebimento de propina, Cabral negou peremptoriamente. Por isso, ninguém poderia supor que seria um ás da corrupção. Constata-se, agora, que sua desenvoltura neste mister é assombrosa. Na nossa estada no RJ houve melhorias; hoje, a situação é caótica. Infelizmente, os avanços obtidos já devem estar zerados. Na área pública, por falta de disciplina e persistência, tudo volta à estaca zero. Além disso, os desvios devem ter contribuído para a debacle.

Outro destaque a ser feito é sobre o STF. Sempre pensei na Corte como instância de altíssimo nível, com pessoas discretas e respeitadas, proferindo julgamentos e votos lapidares. Vejo ministros dando palestra aqui e ali, concedendo entrevistas sobre qualquer assunto. O pior é vê-los batendo boca, mostrando discordâncias em público. Observo também ministros com posturas partidárias, pedindo vistas de processos com intuito de postergar decisões. Há ainda o ativismo judicial. Isso tira a credibilidade e desmoraliza a Corte.

Em suma, por tudo o que já foi descoberto, investigado, julgado e transformado em condenação, o ano de 2016 é para ser celebrado como o marco de um novo tempo.

José Martins de Godoy
189 – 20/01/2017

José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial (FDG), presidente do Conselho de Administração do Instituto Aquila. Visite www.blogdogodoy.com

Fonte: http://revistaviverbrasil.com.br/plus/modulos/listas/?tac=noticias-ler&id=1663#.WInOVlMrLIU. Disponível em 26/01/17.